Vejam o que descobri n' O homem que sabia demasiado, o post Filmoterapia, sobre uma outra funcionalidade do cinema, segundo um livro, Guia Terapêutico de Cinema:
"Filmoterapia
Já li este livro há dois anos mas volta e meia regresso a ele com o mesmo prazer da descoberta. É um livro que trata o cinema de uma forma bem diferente do habitual, que concebe a sétima arte como uma terapia. Aliás, o autor, Pedro Marta Santos, diz mesmo que se trata de uma filmoterapia: filmes clássicos e modernos, para todas as doenças e estados de espírito. Escrito de forma divertida (mas explorando o cinema como matéria bem séria), 'Guia Terapêutico de Cinema' está talhado para curar doenças, indisposições ou estados de alma, receitando filmes como terapia para os mais variados sintomas e maleitas. Seja para curar insónias, para enfrentar problemas psíquicos, para usar como fonte de relaxamento, o guia sugere o uso de filmes (e indica o DVD certo) para - em doses bem medidas - enfrentar com sucesso as mais diversas eventualidades.
Jacques Tati está na categoria dos antidepressivos; Vicent Minnelli na classe dos ansiolíticos (como antídotos estão Bergman ou Antonioni). É uma espécie de livro de auto-ajuda com recurso a uma estrutura que mima a literatura médica (receita, genérico, substância activa, dispensário...), é um guia imprescindível para todos os amantes de cinema. O autor sugere filmes para curar insónias, excessos, traumas de infância, dúvidas existenciais, problemas morais, depressões, ansiedade... E divulga listas improváveis como Os Dez Melhores Filmes com freiras', 'Os Dez Piores Filmes com padres e Transsexuais', 'Filmes para Ver na Cama em Noite Chuvosa de Inverno', 'Filmes Que os Homens Gostam e Elas Fingem Que Gostam para lhes Agradar', etc.
Cataloga mais de 2000 filmes - indicando a sua disponibilidade em DVD - em temas bastante originais: 'Puro Vómito', 'O sexo e a Idade', 'De Fazer Chorar as Pedrinhas da Calçada', 'Filmes que Dão Vontade de Praticar Exercício Físico', entre outras abordagens pouco ortodoxas.
Em suma: seja qual for o seu problema, não vá ao médico: leia este livro e veja filmes, muitos filmes. "
Se o impacto do cinema se revela na metáfora, na parábola, na poesia, o impacto do documentário revela-se na voz dos próprios ou nos testemunhos de quem com eles conviveu. É o impacto da realidade na primeira voz. Mas tanto o cinema como o documentário nos podem revelar a realidade, só que por caminhos e perspectivas diferentes.
O documentário apoia-se nos registos reais de som e de imagem, e leva-nos ao local, quase podemos sentir a atmosfera, as sensações. É certo que pode ter de se apoiar em poucos registos, podem até ser apenas vestígios, e ter de colar tudo até encontrar um fio, uma sequência, uma história real ou que se aproxime da realidade. A criatividade está na sua montagem e na qualidade do texto do narrador. Também pode limitar-se ao simples registo em tempo real.
Hoje vou referir um documentário, Fúria da Liberdade, que vi por mero acaso, hoje à tarde, na TVCine 2. Apanhei-o já a meio, julgo eu, mas fiquei presa à história real: Jogos Olímpicos de 1956, na Austrália, finais de Novembro.
A equipa de pólo aquático da Hungria vê-se apanhada de surpresa: o seu país tinha sido invadido pelos soviéticos. O documentário vai-nos mostrando as diversas reacções dos atletas ao drama: voltar ao seu país ou desertar.
O treinador deu-lhes a possibilidade de representar o seu país nas diversas provas, fosse qual fosse a sua decisão individual no final dos Jogos. Alguns voltaram, outros aproveitaram para não mais voltar. Até recentemente, mas já depois de 1991, quando finalmente os russos abandonaram o território. Oito dos atletas da equipa húngara e dois da equipa soviética irão reencontrar-se passados tantos anos.
Voltando aos torneios, o confronto com a equipa soviética chegou a ser violento. Para já, era um confronto simbólico. Acabou ingloriamente com um atleta húngaro ferido, o Zador (registei o nome, não é magnífico?), mas com a vitória para os húngaros. Que sairiam da Final com a Jugoslávia, com a medalha de ouro, apesar da ausência de Zador. É ainda hoje considerada uma das melhores equipas de sempre de pólo aquático.
O documentário abrangeu igualmente a difícil situação dos húngaros sob o domínio soviético, as traições, as denúncias, as prisões, as sentenças de morte. O testemunho de uma sobrevivente à prisão, voltar ao local, ver os nomes dos companheiros mortos numa placa numa parede.
E o testemunho da viúva de outro, viúva aos 25 anos, que guardara para sempre a casca da última laranja, descascada pelo marido, na sua última visita na prisão, a da despedida.
Mas o que mais me impressionou, no documentário, é o valor liberdade. Todos os atletas húngaros que recordaram aqui esses Jogos Olímpicos e o que significaram para si, destacam o valor liberdade acima de todos os outros, como condição intrínseca de ser humano. Zador, que aceitara o convite dos EUA, refere mesmo que a opção não foi difícil e que nunca se arrependeu: De que me valia ser um dos maiores atletas olímpicos de boca amordaçada?
Damos tão pouco valor à liberdade, e não me refiro apenas à liberdade de exprimir a nossa opinião, mas a de decidir das nossas vidas...
Às vezes é um documentário como este que nos vem acordar para a nossa própria realidade de criaturas a caminho da domesticação.
Liberdade é respirar, diz Zador exemplificando, a inspirar profundamente, com um sorriso juvenil. A liberdade é podermos ser quem somos, diz outro atleta. Esta é, a meu ver, a melhor mensagem do documentário, as várias perspectivas de liberdade, como necessária à própria existência de cada indivíduo, sem a qual não pode ser feliz nem realizar-se plenamente.
Do Cinema is my Life, um magnífico post sobre um filme mágico: Sullivan's Travels:
" O cinema como um escape à realidade
Muito recentemente visualizei um clássico de Preston Sturges intitulado Sullivan's Travels. Infelizmente não tenho o tempo nem a disponibilidade para lhe dedicar uma crítica que invariavelmente merecia. Não obstante o facto pretendo com este post que os leitores descubram este maravilhoso pedaço trágico-cómico e que se deleitem com os mais primitivos instintos e objectivos da sétima arte. Se alguma vez esteve em causa que arte e entretenimento não são compatíveis fica aqui a prova, em fita, de que podem complementar-se com uma perfeição exacerbadamente aprazível. Acima de tudo, Sullivan's Travels é uma prolífica lição de vida e recorda-nos e embaraça-nos perante a ingenuidade que sempre tivemos mas que sempre acreditamos não ter. Sturges habilmente prova o quão dura pode ser a realidade e a forma como vamos menosprezando certas e determinadas oferendas que a vida nos vai proporcionando. Além do mais, e talvez seja mesmo a mais importante mensagem do filme, a fita mostra a importância do cinema enquanto o grande olho do século à medida que vai acompanhando a evolução da história mundial, não necessariamente apenas através dos seus eventos mas sim através daquilo que define os eventos: as pessoas. Poder-se-á também adicionar o facto de que a ilusão é uma realidade maravilhosa e que o cinema pode mesmo ser o melhor amigo para escapar a uma dura realidade e, por momentos, viver um mundo de fantasia repleto de emoção. Apenas considerando esse facto, a sétima arte já fez muito por muita gente e será esse, talvez, um dos maiores motivos pelos quais devemos estar gratos. Nunca sabemos quando iremos ser nós (se não já o fomos) a ir buscar conforto a uma arte que nunca desiste de nos fazer acreditar. E isso, meus amigos, vale muito.
Muito é continuamente discutido acerca da pirataria e já exprimi a minha opinião várias vezes quanto ao assunto em questão. Contudo, caso não tenham a possibilidade de adquirir este filme (seja qual for a razão) peço-vos que se dediquem a ela e que visualizem este Sullivan's Travels (será provavelmente uma das rarissimas vezes que faço este apelo) pois a lição de vida, humanismo e realidade valem este 'roubo' cultural. E claro, não nos podemos esquecer das fabulosas interpretações (incluindo a lindíssima Veronica Lake), a soberba realização e todo o restante notável processo que envolve esta fita. Termino este post com uma curiosidade. Em 2007, Sullivan's Travels foi considerado o 67º melhor filme de sempre pelo AFI. Tendo em consideração que o realizador nunca foi um dos mais mencionados e esta obra não é particularmente conhecida, diria que é um enorme e, de resto, justo feito. "
Flashfoward é uma série televisiva muito bem concebida, bem arquitectada, engenhosa, verosímil dentro do inverosímil, a possibilidade de manipulação mental à escala mundial.
As personagens aqui são densas e complexas, e à dimensão humana. E os actores, muito bem escolhidos para o seu papel.
Além de nos entreter, Flashfoward desafia-nos a memorizar pormenores que serão comparados e verificados, passo a passo, num sistema de busca, o "Mosaico", e a raciocinar, a deduzir, a especular o que teria provocado os desmaios silmultâneos a nível global. O quê, o como, e o porquê, por desvendar.
Há uma interessante comparação, neste Flashfoward, entre as diversas dimensões do mal: os pecados terrenos e compreensíveis, próprios da natureza humana, como o alcoolismo do detective, ou as mentiras motivadas pelo medo; já a um outro nível, o da ambição pessoal e da linguagem do poder, aqui já há calculismo, na implacável senadora Clemente, por exemplo; e ainda, de uma outra dimensão da violência, da dimensão do impensável, a verdadeira "face do mal".
Nesta dimensão do mal, há uma premeditação fria e distante. Aqui a manipulação é à escala mundial e sem medir consequências.
E aqui o maior sedutor pode ser o maior assassino. Daí a questão filosófica que vi em Flashfoward: qual será a verdadeira "face do mal"?
Quem quiser seguir a série, ainda vai muito a tempo, pois há sempre um apanhado dos episódios anteriores. E além disso, ainda só vai no início do imbróglio, a investigação do nosso detective, o "Mosaico", acaba de conseguir o seu financiamento para prosseguir.
Flashforward passa no AXN às 4ªs feiras e aos domingos à noite (inicia invariavelmente entre as 21.30 e 22.20).
Sim, já só ligo a televisão para ver esta série e outra, o Boston Legal, que passa na Fox Crime. Boston Legal, pelo William Shatner e pela Candice Bergen. E pelos temas que aborda através dos clientes que a equipa defende em tribunal.
De resto, só algum filme ou documentário interessante.
Filmes relacionados: O Acontecimento (The Happening), de M. Night Shyamalan, 6ª feira, dia 20 de Novembro, às 22.00, no TVCine 3.
E ainda O Rapaz do Pijama às Riscas (The Boy in the Striped Pyjamas), de Mark Herman, domingo, dia 29 de Novembro, às 22.30, no TVC HD.
Breve nota: E aqui uma ligação à Lavandaria e ao seu top five de séries televisivas a 12.11.09, que inclui o Flashfoward e o Boston Legal.
Há memórias de frases
de acontecimentos
de uma determinada claridade
de uma determinada emoção
mas não consigo sequer apreender todo o sentido
Sei que tiveram imensa importância no meu percurso
que de certo modo o determinaram
mas ainda não consigo revê-los
ouvi-los de novo, claro e bom som
Há personagens que foram decisivas na minha vida
e nem sei quem são
desconheço a sua realidade
o que me disseram naquele dia
como senti o seu olhar
as suas palavras
que até podiam ser circunstanciais
vazias de sentido
mas que eu valorizei para sempre
como era meu hábito ou característica
gravar tudo o que me acontecia como se fosse na própria alma
ou registo de memória
Isto determinou o meu percurso
Posso até dizer hoje que parte de mim
é esse registo de memórias
como eu as vivi e senti
absorvi melhor dizendo
da forma fragmentada ou sem sentido
Talvez lhes tenha dado um outro sentido
Como era eu antes dessa influência da memória sensível?
É essa claridade que eu recordo vagamente
Uma nuvem, branca, de Maio
Uma determinada tarde de Verão
numa determinada varanda
Um riso, súbito, límpido
Um determinado jardim
As frases, com sequências de palavras
registadas para sempre numa parte de mim
e posteriores a essa minha natureza primordial
vieram alterar de forma inexorável todo o meu percurso
A minha natureza primordial é anterior às palavras
(Num bloco de notas, Novembro de 2008)
D' O Cachimbo de Magritte, este texto de Bruno Vieira Amaral sobre dois contos de Italo Calvino:
A Nuvem e as Formigas

Publicado no i
Referir a nacionalidade de alguns escritores, como é o caso do italiano Italo Calvino, é um mero acto de competência geográfica ou de zelo patriótico. As obras que lhe granjearam admiração universal provêm de um outro lugar de coordenadas imprecisas, que por comodidade poderemos designar por Literatura, nomeadamente da sub-região do Fantástico. O poder criativo de Calvino, refreado pelo rigor matemático da linguagem, nunca resvala para o devaneio. As Cidades Invisíveis são o exemplo maior dessa arte em que uma imaginação prolífica se alia a uma prosa geométrica. O estilo do autor impõe-se sem esforço aos códigos dos géneros literários.
O mesmo acontece nos dois contos que constituem este livro: A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina. Embora tenham sido escritos numa época (1958 e 1952, respectivamente) em que o neo-realismo ainda era a corrente dominante e mesmo que possam ser classificados de “realistas”, afastam-se de qualquer cartilha literária. O primeiro é a história de um jornalista que decide aceitar o lugar de redactor num pequeno jornal. Obedecendo a um desejo de apagamento (“não suporto chamar a atenção”; “queria sentir-me alguém de passagem”), muda-se para um quarto acanhado na nova cidade. Nesse sentido, a perpétua nuvem de smog que envolve a cidade e os seus habitantes deveria ser uma ajuda. No entanto, a visita da namorada, uma mulher bela e optimista lembra-o da possibilidade de uma vida diferente do beco cinzento e empoeirado que escolheu. O segundo conto passa-se num ambiente rural. Um jovem casal com um filho aluga uma casa. A esperança de aí encontrarem a tranquilidade que amenize as dificuldades quotidianas rapidamente se desvanece. Os terrenos em volta da casa estão infestados de formigas nada preocupadas em proporcionar sossego aos habitantes. Quando procuram saber como é que os vizinhos evitam as formigas, percebem que, mais do que uma ameaça, os insectos são parte integrante do seu modo de vida.
Tal como são apresentados nesta edição, os contos foram publicados em 1965, embora já estivessem incluídos no Livro Quarto da colectânea dos Racconti, de 1958. O autor considerava que estes contos estavam ligados por uma “afinidade estrutural e moral”. As ressonâncias são óbvias e o cruzamento de ambos permite uma leitura mais rica. O retrato de ambientes distintos (uma cidade industrial e uma aldeia) e a natureza oposta das “ameaças” (o smog e as formigas) esvaziam a dimensão neo-realista. A angústia não é classista, nem é um mal exclusivo dos centros urbanos e do progresso. Porém, é selectiva: ataca aqueles que não se adaptam. O casal e o jornalista partilham as dores da inadaptação a um novo meio. Aquilo que é um incómodo para eles é, para os adaptados, um factor de coesão social e até de cumplicidade conjugal. As semelhanças entre ambos os finais, em que os protagonistas se distanciam dos problemas e contemplam paisagens despoluídas e desinfestadas, elucidam-nos quanto ao sentido metafórico que Calvino atribui ao smog e às formigas: o da rotina que nos envolve, como a nuvem de smog, e que entra pelas nossas casas sem pedir licença, como as formigas.
A nossa casa é branca
e está colocada no lugar certo
de um lado a montanha
do outro o lago
e no espaço intermédio
árvores e flores
Mas o melhor da casa é a luz
a luz da casa
que se inicia de manhá
primeiro oblíqua
depois vertical
Há um caminho para a casa
um caminho só
e só sabe percorrê-lo
quem de nós sabe
o riso e os abraços
A sala está virada para a entrada
de onde os podemos ver chegar
um a um, vamos recebê-los
deixando as suas vozes misturar-se
com a brisa que ali sempre passa
A nossa casa
é a nossa história comum
branca e luminosa
os gestos mais simples
palavras soltas
risos
algumas lágrimas
e o espaço subtil
que tudo ilumina
("Voltar a casa", Outubro, 2009)
Foi ontem que o avistámos. Na berma da estrada, em cima de um planalto sinuoso.
As penas castanhas ao sol da tarde formaram vários reflexos quando iniciou um breve voo.
Equilibrou-se de forma ágil na ponta superior de um pinheiro. Voou de novo e de novo pousou na ponta de outro pinheiro.
Pouco depois vimo-lo a planar num céu muito azul, mantendo-se quase imóvel, aproveitando uma ou outra corrente de ar para subir, sempre a planar, ou descer, as asas muito abertas.
Um ligeiro movimento e avança de lado rapidamente, como um avião nos filmes dos anos 4o.
A ideia de prazer, de total liberdade, sintetizada no planar de um açor no cimo de um planalto.
("O lugar ainda é o mesmo...", Outono, 2009)
E a segunda Descoberta vem da Galiza:
Houve um tempo
em que a mediocridade da existência
não me podia tocar
Ainda não tinha
essa consciência nítida
da perda da ligação ao essencial
Pensamos que a recuperamos
através dos que nos rodeiam
mas hoje vejo que isso não é possível
temos de nos distanciar
Por milésimos de segundo
sinto-me ligada ao essencial
a sensação única de estar viva
todas as células afinadas e sensíveis
Mas já não é tão frequente como antes
antes da mediocridade da existência
somada, arrastada em anos, séculos,
antes da consciência da perda do essencial
("Voltar a casa", Setembro, 2009)
textos em viagem
outros lugares
agência portuguesa de revistas - a sua história
dias que voam - revista banquete
há sempre um livro... à nossa espera!
ilustrações, desenhos e outras coisas...