Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Do Tempo das Descobertas: o cinema como terapia

 

Vejam o que descobri n' O homem que sabia demasiado, o post Filmoterapia, sobre uma outra funcionalidade do cinema, segundo um livro, Guia Terapêutico de Cinema:

 

"Filmoterapia

 

Já li este livro há dois anos mas volta e meia regresso a ele com o mesmo prazer da descoberta. É um livro que trata o cinema de uma forma bem diferente do habitual, que concebe a sétima arte como uma terapia. Aliás, o autor, Pedro Marta Santos, diz mesmo que se trata de uma filmoterapia: filmes clássicos e modernos, para todas as doenças e estados de espírito. Escrito de forma divertida (mas explorando o cinema como matéria bem séria), 'Guia Terapêutico de Cinema' está talhado para curar doenças, indisposições ou estados de alma, receitando filmes como terapia para os mais variados sintomas e maleitas. Seja para curar insónias, para enfrentar problemas psíquicos, para usar como fonte de relaxamento, o guia sugere o uso de filmes (e indica o DVD certo) para - em doses bem medidas - enfrentar com sucesso as mais diversas eventualidades.

Jacques Tati está na categoria dos antidepressivos; Vicent Minnelli na classe dos ansiolíticos (como antídotos estão Bergman ou Antonioni). É uma espécie de livro de auto-ajuda com recurso a uma estrutura que mima a literatura médica (receita, genérico, substância activa, dispensário...), é um guia imprescindível para todos os amantes de cinema. O autor sugere filmes para curar insónias, excessos, traumas de infância, dúvidas existenciais, problemas morais, depressões, ansiedade... E divulga listas improváveis como Os Dez Melhores Filmes com freiras', 'Os Dez Piores Filmes com padres e Transsexuais', 'Filmes para Ver na Cama em Noite Chuvosa de Inverno', 'Filmes Que os Homens Gostam e Elas Fingem Que Gostam para lhes Agradar', etc.

Cataloga mais de 2000 filmes - indicando a sua disponibilidade em DVD - em temas bastante originais: 'Puro Vómito', 'O sexo e a Idade', 'De Fazer Chorar as Pedrinhas da Calçada', 'Filmes que Dão Vontade de Praticar Exercício Físico', entre outras abordagens pouco ortodoxas.

Em suma: seja qual for o seu problema, não vá ao médico: leia este livro e veja filmes, muitos filmes.  "

 

 


sinto-me: grata aos bons guias
música: 7 Days to Change Your Life - Jamie Cullum - Catching Tales

publicado por rio_sem_regresso às 20:37
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Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
O impacto do documentário: a liberdade

 

Se o impacto do cinema se revela na metáfora, na parábola, na poesia, o impacto do documentário revela-se na voz dos próprios ou nos testemunhos de quem com eles conviveu. É o impacto da realidade na primeira voz. Mas tanto o cinema como o documentário nos podem revelar a realidade, só que por caminhos e perspectivas diferentes.

 

O documentário apoia-se nos registos reais de som e de imagem, e leva-nos ao local, quase podemos sentir a atmosfera, as sensações. É certo que pode ter de se apoiar em poucos registos, podem até ser apenas vestígios, e ter de colar tudo até encontrar um fio, uma sequência, uma história real ou que se aproxime da realidade. A criatividade está na sua montagem e na qualidade do texto do narrador. Também pode limitar-se ao simples registo em tempo real.

 

Hoje vou referir um documentário, Fúria da Liberdade, que vi por mero acaso, hoje à tarde, na TVCine 2. Apanhei-o já a meio, julgo eu, mas fiquei presa à história real: Jogos Olímpicos de 1956, na Austrália, finais de Novembro.

A equipa de pólo aquático da Hungria vê-se apanhada de surpresa: o seu país tinha sido invadido pelos soviéticos. O documentário vai-nos mostrando as diversas reacções dos atletas ao drama: voltar ao seu país ou desertar.

O treinador deu-lhes a possibilidade de representar o seu país nas diversas provas, fosse qual fosse a sua decisão individual no final dos Jogos. Alguns voltaram, outros aproveitaram para não mais voltar. Até recentemente, mas já depois de 1991, quando finalmente os russos abandonaram o território. Oito dos atletas da equipa húngara e dois da equipa soviética irão reencontrar-se passados tantos anos.

 

Voltando aos torneios, o confronto com a equipa soviética chegou a ser violento. Para já, era um confronto simbólico. Acabou ingloriamente com um atleta húngaro ferido, o Zador (registei o nome, não é magnífico?), mas com a vitória para os húngaros. Que sairiam da Final com a Jugoslávia, com a medalha de ouro, apesar da ausência de Zador. É ainda hoje considerada uma das melhores equipas de sempre de pólo aquático.

 

O documentário abrangeu igualmente a difícil situação dos húngaros sob o domínio soviético, as traições, as denúncias, as prisões, as sentenças de morte. O testemunho de uma sobrevivente à prisão, voltar ao local, ver os nomes dos companheiros mortos numa placa numa parede.

E o testemunho da viúva de outro, viúva aos 25 anos, que guardara para sempre a casca da última laranja, descascada pelo marido, na sua última visita na prisão, a da despedida.

 

Mas o que mais me impressionou, no documentário, é o valor liberdade. Todos os atletas húngaros que recordaram aqui esses Jogos Olímpicos e o que significaram para si, destacam o valor liberdade acima de todos os outros, como condição intrínseca de ser humano. Zador, que aceitara o convite dos EUA, refere mesmo que a opção não foi difícil e que nunca se arrependeu: De que me valia ser um dos maiores atletas olímpicos de boca amordaçada?

 

Damos tão pouco valor à liberdade, e não me refiro apenas à liberdade de exprimir a nossa opinião, mas a de decidir das nossas vidas...

Às vezes é um documentário como este que nos vem acordar para a nossa própria realidade de criaturas a caminho da domesticação.

Liberdade é respirar, diz Zador exemplificando, a inspirar profundamente, com um sorriso juvenil. A liberdade é podermos ser quem somos, diz outro atleta. Esta é, a meu ver, a melhor mensagem do documentário, as várias perspectivas de liberdade, como necessária à própria existência de cada indivíduo, sem a qual não pode ser feliz nem realizar-se plenamente.

 


sinto-me: a reflectir
música: "Boy Child" - Scott Walker - The Best of 1967-1970

publicado por rio_sem_regresso às 22:01
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Do Tempo das Descobertas: o cinema como um escape à realidade

 

Do Cinema is my Life, um magnífico post sobre um filme mágico: Sullivan's Travels:

 

 

" O cinema como um escape à realidade

 

Muito recentemente visualizei um clássico de Preston Sturges intitulado Sullivan's Travels. Infelizmente não tenho o tempo nem a disponibilidade para lhe dedicar uma crítica que invariavelmente merecia. Não obstante o facto pretendo com este post que os leitores descubram este maravilhoso pedaço trágico-cómico e que se deleitem com os mais primitivos instintos e objectivos da sétima arte. Se alguma vez esteve em causa que arte e entretenimento não são compatíveis fica aqui a prova, em fita, de que podem complementar-se com uma perfeição exacerbadamente aprazível. Acima de tudo, Sullivan's Travels é uma prolífica lição de vida e recorda-nos e embaraça-nos perante a ingenuidade que sempre tivemos mas que sempre acreditamos não ter. Sturges habilmente prova o quão dura pode ser a realidade e a forma como vamos menosprezando certas e determinadas oferendas que a vida nos vai proporcionando. Além do mais, e talvez seja mesmo a mais importante mensagem do filme, a fita mostra a importância do cinema enquanto o grande olho do século à medida que vai acompanhando a evolução da história mundial, não necessariamente apenas através dos seus eventos mas sim através daquilo que define os eventos: as pessoas. Poder-se-á também adicionar o facto de que a ilusão é uma realidade maravilhosa e que o cinema pode mesmo ser o melhor amigo para escapar a uma dura realidade e, por momentos, viver um mundo de fantasia repleto de emoção. Apenas considerando esse facto, a sétima arte já fez muito por muita gente e será esse, talvez, um dos maiores motivos pelos quais devemos estar gratos. Nunca sabemos quando iremos ser nós (se não já o fomos) a ir buscar conforto a uma arte que nunca desiste de nos fazer acreditar. E isso, meus amigos, vale muito.

 

Muito é continuamente discutido acerca da pirataria e já exprimi a minha opinião várias vezes quanto ao assunto em questão. Contudo, caso não tenham a possibilidade de adquirir este filme (seja qual for a razão) peço-vos que se dediquem a ela e que visualizem este Sullivan's Travels (será provavelmente uma das rarissimas vezes que faço este apelo) pois a lição de vida, humanismo e realidade valem este 'roubo' cultural. E claro, não nos podemos esquecer das fabulosas interpretações (incluindo a lindíssima Veronica Lake), a soberba realização e todo o restante notável processo que envolve esta fita. Termino este post com uma curiosidade. Em 2007, Sullivan's Travels foi considerado o 67º melhor filme de sempre pelo AFI. Tendo em consideração que o realizador nunca foi um dos mais mencionados e esta obra não é particularmente conhecida, diria que é um enorme e, de resto, justo feito. "

 

 


sinto-me: grata às boas comédias
música: City Life - Camel - Nude

publicado por rio_sem_regresso às 14:39
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
"Flashfoward": qual será a verdadeira "face do mal"?

  

Flashfoward é uma série televisiva muito bem concebida, bem arquitectada, engenhosa, verosímil dentro do inverosímil, a possibilidade de manipulação mental à escala mundial.

As personagens aqui são densas e complexas, e à dimensão humana. E os actores, muito bem escolhidos para o seu papel.

 

Além de nos entreter, Flashfoward desafia-nos a memorizar pormenores que serão comparados e verificados, passo a passo, num sistema de busca, o "Mosaico", e a raciocinar, a deduzir, a especular o que teria provocado os desmaios silmultâneos a nível global. O quê, o como, e o porquê, por desvendar. 

 

Há uma interessante comparação, neste Flashfoward, entre as diversas dimensões do mal: os pecados terrenos e compreensíveis, próprios da natureza humana, como o alcoolismo do detective, ou as mentiras motivadas pelo medo; já a um outro nível, o da ambição pessoal e da linguagem do poder, aqui já há calculismo, na implacável senadora Clemente, por exemplo; e ainda, de uma outra dimensão da violência, da dimensão do impensável, a verdadeira "face do mal".

Nesta dimensão do mal, há uma premeditação fria e distante. Aqui a manipulação é à escala mundial e sem medir consequências.

E aqui o maior sedutor pode ser o maior assassino. Daí a questão filosófica que vi em Flashfoward: qual será a verdadeira "face do mal"?

 

Quem quiser seguir a série, ainda vai muito a tempo, pois há sempre um apanhado dos episódios anteriores. E além disso, ainda só vai no início do imbróglio, a investigação do nosso detective, o "Mosaico", acaba de conseguir o seu financiamento para prosseguir.

Flashforward passa no AXN às 4ªs feiras e aos domingos à noite (inicia invariavelmente entre as 21.30 e 22.20).

 

Sim, já só ligo a televisão para ver esta série e outra, o Boston Legal, que passa na Fox Crime. Boston Legal, pelo William Shatner e pela Candice Bergen. E pelos temas que aborda através dos clientes que a equipa defende em tribunal.

De resto, só algum filme ou documentário interessante.

 

 

Filmes relacionados: O Acontecimento (The Happening), de M. Night Shyamalan, 6ª feira, dia 20 de Novembro, às 22.00, no TVCine 3.

E ainda O Rapaz do Pijama às Riscas (The Boy in the Striped Pyjamas), de Mark Herman, domingo, dia 29 de Novembro, às 22.30, no TVC HD. 

 

Breve nota: E aqui uma ligação à Lavandaria e ao seu top five de séries televisivas a 12.11.09, que inclui o Flashfoward e o Boston Legal.

 


sinto-me: a apreciar bons "scripts"
música: I'm glad there is you - Jamie Cullum - Catching Tales

publicado por rio_sem_regresso às 11:21
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
...

 

 

Há memórias de frases

de acontecimentos

de uma determinada claridade

de uma determinada emoção

mas não consigo sequer apreender todo o sentido

 

Sei que tiveram imensa importância no meu percurso

que de certo modo o determinaram

mas ainda não consigo revê-los

ouvi-los de novo, claro e bom som

 

Há personagens que foram decisivas na minha vida

e nem sei quem são

desconheço a sua realidade

o que me disseram naquele dia

como senti o seu olhar

as suas palavras

que até podiam ser circunstanciais

vazias de sentido

mas que eu valorizei para sempre

como era meu hábito ou característica

gravar tudo o que me acontecia como se fosse na própria alma

ou registo de memória

 

Isto determinou o meu percurso

Posso até dizer hoje que parte de mim

é esse registo de memórias

como eu as vivi e senti

absorvi melhor dizendo

da forma fragmentada ou sem sentido

Talvez lhes tenha dado um outro sentido

 

Como era eu antes dessa influência da memória sensível?

É essa claridade que eu recordo vagamente

Uma nuvem, branca, de Maio

Uma determinada tarde de Verão

numa determinada varanda

Um riso, súbito, límpido

Um determinado jardim


As frases, com sequências de palavras

registadas para sempre numa parte de mim

e posteriores a essa minha natureza primordial

vieram alterar de forma inexorável todo o meu percurso


A minha natureza primordial é anterior às palavras

 

 

 

 

(Num bloco de notas, Novembro de 2008)

 

 


sinto-me: a dar um sentido

publicado por rio_sem_regresso às 00:06
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
Do Tempo das Descobertas: A Nuvem e as Formigas

 

D' O Cachimbo de Magritte, este texto de Bruno Vieira Amaral sobre dois contos de Italo Calvino:

 

 

A Nuvem e as Formigas


Publicado no i
Referir a nacionalidade de alguns escritores, como é o caso do italiano Italo Calvino, é um mero acto de competência geográfica ou de zelo patriótico. As obras que lhe granjearam admiração universal provêm de um outro lugar de coordenadas imprecisas, que por comodidade poderemos designar por Literatura, nomeadamente da sub-região do Fantástico. O poder criativo de Calvino, refreado pelo rigor matemático da linguagem, nunca resvala para o devaneio. As Cidades Invisíveis são o exemplo maior dessa arte em que uma imaginação prolífica se alia a uma prosa geométrica. O estilo do autor impõe-se sem esforço aos códigos dos géneros literários.

O mesmo acontece nos dois contos que constituem este livro: A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina. Embora tenham sido escritos numa época (1958 e 1952, respectivamente) em que o neo-realismo ainda era a corrente dominante e mesmo que possam ser classificados de “realistas”, afastam-se de qualquer cartilha literária. O primeiro é a história de um jornalista que decide aceitar o lugar de redactor num pequeno jornal. Obedecendo a um desejo de apagamento (“não suporto chamar a atenção”; “queria sentir-me alguém de passagem”), muda-se para um quarto acanhado na nova cidade. Nesse sentido, a perpétua nuvem de smog que envolve a cidade e os seus habitantes deveria ser uma ajuda. No entanto, a visita da namorada, uma mulher bela e optimista lembra-o da possibilidade de uma vida diferente do beco cinzento e empoeirado que escolheu. O segundo conto passa-se num ambiente rural. Um jovem casal com um filho aluga uma casa. A esperança de aí encontrarem a tranquilidade que amenize as dificuldades quotidianas rapidamente se desvanece. Os terrenos em volta da casa estão infestados de formigas nada preocupadas em proporcionar sossego aos habitantes. Quando procuram saber como é que os vizinhos evitam as formigas, percebem que, mais do que uma ameaça, os insectos são parte integrante do seu modo de vida.

Tal como são apresentados nesta edição, os contos foram publicados em 1965, embora já estivessem incluídos no Livro Quarto da colectânea dos Racconti, de 1958. O autor considerava que estes contos estavam ligados por uma “afinidade estrutural e moral”. As ressonâncias são óbvias e o cruzamento de ambos permite uma leitura mais rica. O retrato de ambientes distintos (uma cidade industrial e uma aldeia) e a natureza oposta das “ameaças” (o smog e as formigas) esvaziam a dimensão neo-realista. A angústia não é classista, nem é um mal exclusivo dos centros urbanos e do progresso. Porém, é selectiva: ataca aqueles que não se adaptam. O casal e o jornalista partilham as dores da inadaptação a um novo meio. Aquilo que é um incómodo para eles é, para os adaptados, um factor de coesão social e até de cumplicidade conjugal. As semelhanças entre ambos os finais, em que os protagonistas se distanciam dos problemas e contemplam paisagens despoluídas e desinfestadas, elucidam-nos quanto ao sentido metafórico que Calvino atribui ao smog e às formigas: o da rotina que nos envolve, como a nuvem de smog, e que entra pelas nossas casas sem pedir licença, como as formigas.

 

 


sinto-me: a ver os "filmes"...

publicado por rio_sem_regresso às 16:44
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Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
A nossa casa

 

 

A nossa casa é branca

e está colocada no lugar certo

de um lado a montanha

do outro o lago

e no espaço intermédio

árvores e flores

 

Mas o melhor da casa é a luz

a luz da casa

que se inicia de manhá

primeiro oblíqua

depois vertical

 

Há um caminho para a casa

um caminho só

e só sabe percorrê-lo

quem de nós sabe

o riso e os abraços

 

A sala está virada para a entrada

de onde os podemos ver chegar

um a um, vamos recebê-los

deixando as suas vozes misturar-se

com a brisa que ali sempre passa

 

A nossa casa

é a nossa história comum

branca e luminosa

os gestos mais simples

palavras soltas

risos

algumas lágrimas

e o espaço subtil

que tudo ilumina

 

 

 

 

("Voltar a casa", Outubro, 2009)

 

 


sinto-me: luminosa
música: "Our house" - Crosby, Stills, Nash & Young
tags: , , ,

publicado por rio_sem_regresso às 12:08
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Sábado, 17 de Outubro de 2009
Açor (accipiter gentilis) a planar

  

 

Foi ontem que o avistámos. Na berma da estrada, em cima de um planalto sinuoso.

As penas castanhas ao sol da tarde formaram vários reflexos quando iniciou um breve voo.

Equilibrou-se de forma ágil na ponta superior de um pinheiro. Voou de novo e de novo pousou na ponta de outro pinheiro.

Pouco depois vimo-lo a planar num céu muito azul, mantendo-se quase imóvel, aproveitando uma ou outra corrente de ar para subir, sempre a planar, ou descer, as asas muito abertas.

Um ligeiro movimento e avança de lado rapidamente, como um avião nos filmes dos anos 4o.

A ideia de prazer, de total liberdade, sintetizada no planar de um açor no cimo de um planalto.

 

 

("O lugar ainda é o mesmo...", Outono, 2009)

 

 


sinto-me: a planar...

publicado por rio_sem_regresso às 15:35
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Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Do Tempo das Descobertas: O Estanque

 

E a segunda Descoberta vem da Galiza:

 

 

Avelino Abilheira
" Cara amiga, caro amigo,


Nestes dias inversos em que a palavra "paz" pertence aos donos das
guerras, atrevo-me a incorrer no vosso prezado tempo com este breve
pensamento antigo sobre os alimentos perenes da vida, que são o amor, a luta, a ordem da matéria, a memória. Grande abraço!
 
 
O Estanque

Aconteceu a começos da estação migratória, durante sete noites de irrepetível alinhamento entre Vénus, Terra e Marte, nesses anos de rara esperança para o povo em que até as águas podiam voltar a falar: não existe para a História igual prazer que expulsar o opulento monarca que ocupava a tua casa.

Eu passeava na alta noite na Alameda, lembrando os seus caminhos, quando a superfície totalmente lisa do estanque começou a vibrar levemente desde o centro sob o mesmo princípio sonoro dos tambores e das membranas dos telefones infantis de lata e corda tensa. Sentei-me num banco para escutar melhor uma baixa harmonia de vogais. Apenas distingui algumas sílabas de flores antes de o vento perturbar as águas. A presença dum guarda aproximando-se convidou-me a partir, pois os tempos ainda eram menos livres que o desejo.

Voltei à noite seguinte à mesma hora. Junto da alverca circular, o Comissário instruía com gestos de vigor a um jovem pálido de olhar perdido que reconheci como habitante do outro lado da liberdade, um pobre guarda daquele ano da greve agora destinado a recolher informações, como se o acosso aos humildes doesse menos do que os golpes.

Fingindo indiferença, aproximei-me das águas pelo lado oposto, e o portento das ondas suaves repetiu-se. Mas de novo entrou um ar que rompeu a superfície e enxotou as palavras, porque com dois elementos —água e terra— traçamos os signos os humanos, mas os outros dois foram criados para apagar as escritas.

Só na terceira noite o estanque terso como um espelho para astros e aves difundiu com clareza fragmentos dum diálogo em dois timbres. Falavam papéis miúdos aliados com a substância do pão, porque nascem do mesmo germe vegetal. Então reconheci entre pausas palavras sobre flores e sangue, frases sobre poesia e persistência, sentenças da inconfundível matéria do amor. No seu banco, o pálido polícia escutava também, olhava-me em suspeita, detinha-se, registava coisas minuciosas num caderno.

Por fim, no zénite da quarta noite extremamente calma, pude reviver com prazer meses inteiros de conversas furtivas. Voltei a ver duas figuras a fiarem lentas danças de passos entre as árvores. Com a última frase singularmente clara todo o estanque tremeu como um redondo mamífero que acabasse de acolher no centro uma semente. Quando o diálogo concluiu com um prolongado nome de mulher, no branco silêncio final da sinfonia, retirei-me a descansar, tranquilo, pleno.

Nas noites seguintes a intensidade das vozes foi esmorecendo enquanto os três pontos planetários se afastavam da linha guia marcada no seu céu. Foi só no último dia do prodígio, quando quase nada se escutava, que observei como o jovem polícia já não escrevia. Se soava a voz da mulher, ele erguia a cabeça e olhava para o fundo dos salgueiros, como lembrando um abraço não vivido, o admirável rosto dessa voz, a breve visita em missão de trabalho à casa das acácias amarelas. Compadeci que o guarda fosse prisioneiro dum antigo desejo pelo qual nem sequer combatera. Pela minha parte, a ausência fizera-me entender que embora as flores irreparáveis morram, outras podem nascer no seu lugar para escreverem de novo nas janelas.


Pouco tempo depois houve um enorme massacre e uma guerra terrível. Se por desgraçada obediência eu tivesse levantado uma arma, talvez esta não fosse a nossa, mas a arma do terror. E talvez, em paradoxo, me visse obrigado a matar defronte na trincheira um infeliz converso que pálido de amor defendia a morte a liberdade dos povos e das águas para falarem quando se ordenam com justeza no infinito as três cores dos planetas.
"
 
 

sinto-me: sem palavras...
música: silêncio absoluto

publicado por rio_sem_regresso às 21:16
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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009
...

 

 

Houve um tempo

em que a mediocridade da existência

não me podia tocar

 

Ainda não tinha

essa consciência nítida

da perda da ligação ao essencial

 

Pensamos que a recuperamos

através dos que nos rodeiam

mas hoje vejo que isso não é possível

temos de nos distanciar

 

Por milésimos de segundo

sinto-me ligada ao essencial

a sensação única de estar viva

todas as células afinadas e sensíveis

 

Mas já não é tão frequente como antes

antes da mediocridade da existência

somada, arrastada em anos, séculos,

antes da consciência da perda do essencial

 

 

 

("Voltar a casa", Setembro, 2009)

 

 



publicado por rio_sem_regresso às 01:11
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