Hoje é em todas as crianças que penso, o milagre maior da vida nesse menino que hoje adoramos. É essa a mensagem deste dia que nasceu assim cheio de sol, de um sol magnífico!
Gosto de metáforas e a natureza dá-nos as metáforas que fazem mais sentido: depois da noite misteriosa de ontem, noite tranquila e silenciosa, em que uma luz nos guia, rodeados de um amor maternal, abrangente e pacífico, nasce o dia, alegre e magnífico, virado para a vida vibrante e para o futuro.
Reparem na metáfora: noite misteriosa, tranquila e silenciosa - amor maternal e abrangente, que cria e aconchega; dia de sol, alegre e magnífico - vida vibrante e alegre, virada para o futuro.
E em relação à luz: nessa noite misteriosa é uma estrela longínqua que nos guia até esse lugar, para não nos perdermos no caminho, protectora como o amor maternal; uma outra estrela ilumina o dia que nasce, alegre e ousado, como são todos os meninos a querer conhecer o mundo e a sorver plenamente a vida.
Esta é a lógica da vida: o amor na origem da vida dá o impulso necessário para o futuro. É por isso que esta rotina anual, o Natal, pode ser estruturante, mesmo para os que gostariam de lhe escapar.
Se estivermos intencionalmente receptivos a olhar para nós e por nós próprios, amorosamente disponíveis para aprender alguma coisa de novo nesta vida que passa a voar por nós, vemos outra dimensão do Natal, a nossa própria dimensão. Todas as luzes artificiais a piscar e o marketing em inglês colado nas montras (be happy, life is good, I wish), todos os sons martelados nas lojas e corredores, todo esse vaivém de compras de última hora nos vai parecer um filme em que somos apenas espectadores. Tudo fica em câmara lenta como nos filmes, e sentimos o nosso próprio coração aquietar-se, a encher-se de uma alegria já esquecida, e os nossos olhos iluminam-se e adoçam-se, somos de novo essa criança virada para o futuro, cheia de curiosidade, generosidade e sonhos, mas também somos a mãe protectora e tolerante, que cria e aconchega para depois acompanhar de cada vez mais longe, e tudo volta ao seu lugar, chegamos a casa.
O milagre da vida é a mensagem do Natal. Viramo-nos hoje para um futuro possível, onde as crianças têm o lugar certo para crescer: protegidas e acarinhadas, e viradas para o futuro melhor possível para si, um caminho adequado à sua curiosidade, generosidade e sonhos.
Desde sempre tive esta noção muito clara: a saúde é essencial da nossa vida, a nossa primeira prioridade. Hoje percebo um pouco melhor: a saúde está relacionada com todas as áreas da nossa vida. Tudo o que pensamos e fazemos reflecte-se na nossa saúde, no nosso equilíbrio. Assim como aquilo que falha nesse equilíbrio se vai reflectir na nossa vida.
Respeito imenso as pessoas que se revelam disponíveis para partilhar com outras experiências de doença grave, por exemplo, para lhes dar informações preciosas sobre a sua experiência que podem ser úteis para outras, ou para simplesmente lhes dar ânimo e coragem. Pessoalmente, acho que essa disponibilidade é uma dádiva que pode ser penalizadora para o próprio. Eu explico: as pessoas têm tendência a fixar-se no termo e no significado de “doença”, e se for grave ligam-na de imediato a um fim iminente, com toda a carga emocional e dramática que isso envolve. A pessoa passa a ser vista como “doente”, e o olhar que recebe dos outros traz já essa classificação implícita.
Não sei se por natureza ou se por optimismo incorrigível, esqueço-me completamente da “doença” quando alguém me confidencia essa experiência, e concentro-me na pessoa percebida como uma totalidade, os seus gestos, o seu riso, o seu olhar, a sua perspectiva. Sei que essa experiência foi real, que foi uma experiência dolorosa, que o medo de voltar a adoecer está presente, mas prefiro confiar simplesmente na vida, e concentrar-me no caminho à sua frente e em todas as experiências que a vida ainda lhe pode reservar. Sei que essa confiança na vida reforça as suas defesas, tenho mesmo a certeza disso. E sei que a atitude que terá perante a vida a levará a cuidar mais da saude e do equilíbrio possível entre as várias áreas da sua vida.
A pessoa não é a sua doença. A doença é uma experiência que tem inúmeras causas. É melhor lidar com essa experiência apenas com as pessoas que a podem ajudar, que confiam na vida. O olhar da maior parte das pessoas não ajuda, falta-lhes a sensibilidade para perceber que a curiosidade mórbida é uma invasão do espaço do outro, que o medo do futuro é uma emoção inútil, e que, não me canso de o repetir, uma pessoa não é a sua doença. Por isto tudo respeito a coragem e a generosidade de quem partilha a sua experiência para ajudar outras pessoas que passam pela mesma experiência.
Quando era miúda a minha mãe assinava a Marie France. Nos anos 70 achei piada à refrescante Cláudia brasileira, sobretudo pela roupa de Verão e pelas sugestões sobre tratamentos da pele, cabelos e maquilhagem (interesses naturais de uma adolescente). Nos anos 80 coleccionei a Decoração Internacional, dava-me uma sensação de estabilidade talvez, os espaços preenchidos ou deixados vazios estrategicamente. Nos anos 90 foi a vez da Grande Reportagem - a única, a original, não a sucedânea -, a Première francesa, e algumas especializadas em gestão e marketing, sobretudo as vocacionadas para as novas empresárias que começaram a florescer por cá nessa década. A partir dos anos 0 de um novo século, foi a variedade que passou a contar: uma miscelânea de interesses desde a roupa, as casas e jardins, gestão, marketing, reportagens sociológicas, e o inevitável cinema.
Este mês de Novembro foi a vez de uma Happy Woman, para onde de vez em quando lançava um olhar curioso mas que me soava a um conceito provocador e revelador dos tempos actuais.
À primeira vista esta interpretação fiel dos tempos actuais pode parecer traduzir uma perspectiva de felicidade instantânea, como se a pudéssemos encomendar, como se adquirir alguns produtos ou consumir alguns serviços nos pudesse tornar mais felizes, ou melhor, como se a privação desses produtos e serviços nos tirasse alguma felicidade. No entanto, sejamos justos: depois de adquirida alguma liberdade de movimentos, é muito difícil voltar à confinação de um espaço limitado, depois de adquirida alguma qualidade de vida é terrível abdicar dela.
Mas a revista revelou-se muito mais do que esta minha ideia inicial:
Dá para identificar o seu público-alvo, para já o miolo de uma fatia provavelmente maior: mulheres entre os 25 e 45, bem sucedidas (entenda-se pelas regras de sucesso actuais: status financeiro médio e médio alto). Uma fatia mais abrangente pode alargar-se perfeitamente a jovens estudantes a partir dos 15 e profissionais adultas com mais de 45 (não resisti...)
A revista é competente, trata dos assuntos essenciais do dia a dia destas mulheres, não apenas a imagem, o que vestir e como, mas o seu bem-estar geral: trabalho (aqui entendido como carreira), os relacionamentos afectivos (aqui abrangendo todas as possibilidades, como um menu... ups!, já fiz uma associação estranha aqui...), a saúde (esta área está particularmente bem concebida com informações úteis sobre as especialidades médicas a que se pode recorrer, como distinguir os serviços de qualidade, refiro-me a esta específica de Novembro), o lazer e o descanso das guerreiras (hotéis, spas, restaurantes), sim, porque o miolo desta fatia social é composto por autênticas guerreiras que se movem num mundo muito competitivo, a nível profissional e a nível relacional.
Na era do Facebook, dos “like” e “dislike”, das trocas de informação entre amigos e fãs, uma revista para ser bem sucedida tem de assegurar informação:
- de qualidade, correcta e actualizada;
- organizada, com uma clara distinção entre o que é importante e o que é irrelevante;
- original, com uma perspectiva única e interessante;
- e oportuna, respondendo às expectativas do seu público-alvo.
Em todos estes requisitos, a Happy Woman corresponde de forma competente. A informação sobrepõe-se à publicidade, tornando-a ainda mais eficaz: para cada peça é dada a informação relativa ao preço de loja, o que é fundamental na era da internet e das aquisições à distância de um clic. Desta forma, pode-se elaborar uma lista personalizada e organizar as compras por prioridades. São dadas ainda sugestões sobre que tipo de roupa escolher de acordo com a silhueta de cada uma. A informação privilegia a escolha de estilos diversos, e neste item a revista é original: para cada estilo há uma imensidade de peças, como um grande bazar, sem ter de sair de casa. É também nesta característica da informação que a revista traduz a sociedade actual, virada essencialmente para o social, a exposição, o público, em que as personagens mais influentes em termos de estilo, atitude e comportamentos são provenientes do espectáculo: cinema, música, design de roupa, etc. Hoje uma actriz ou cantora conhecida tem seguidores e pode influenciar escolhas importantes, mesmo a nível político (lembram-se da eleição de Obama?)
Mas quem é afinal a “happy woman”?
Começaria pela comunicação: franca, directa, sem preconceitos, aberta a novas experiências, muito prática, algum bom senso e muita ousadia. Preocupada com a imagem, mas sobretudo com o sucesso na carreira e nos relacionamentos. Exige muito de si própria, é competente no que faz e quer ser reconhecida por isso, e exige competência dos outros também. Nessa perspectiva, é muito ambiciosa: tudo em um, conciliar tudo e tudo funcionar.
É exigente com a qualidade dos produtos e dos serviços, recorre a muitos deles e quer que correspondam às suas expectativas, isto é, que funcionem. Subentende-se que come mais fora do que em casa ou que, se isso acontece, traz a comida já confeccionada ou pré-cozinhada. Provavelmente também na roupa recorre à lavandaria ou contrata esse serviço em casa.
É muito autónoma relativamente às decisões que toma, às suas escolhas, mas precisa da aprovação social, tem sede de informação sobre o que é in, o bom look, mas também os lugares a ir e as pessoas a conhecer. No mundo onde se move isso é avaliado e pode determinar a integração no grupo em que pretende inserir-se. É essencialmente urbana e sofisticada ou, pelo menos, de uma simplicidade sofisticada.
Em termos da saúde e dos cuidados consigo própria, ainda não estamos na preocupação propriamente dita da manutenção da juventude (congelar a idade), pois a curva etária dessa preocupação, na sua forma obsessiva, parece estar agora a deslocar-se para a faixa dos 45 aos 65, e a “happy woman” ainda não se dirige preferencialmente a essas mulheres (de novo não resisti...)
O mundo onde se move esta “happy woman” é um mundo de imensos desafios e obstáculos. Daí a minha admiração pela sua capacidade de resistência: ao stress, em primeiro lugar, ao desgaste emocional, à competição desleal. É, de facto, notável.
O que mais me agrada é a ausência de preconceitos, essa largueza mental. Pode parecer ameaçador para alguns ou até decadente para outros, mas a abertura a novas experiências pode ter o seu lado rebelde e refrescante, desde que se tenha consciência da realidade envolvente. E a “happy woman” parece ter os olhos bem abertos.
Irei continuar esta reflexão sobre as mulheres hoje, no mundo de hoje, e sobre esta “happy woman” que o interpreta na perfeição.
Dois filmes a rever que identificam o início do percurso desta “happy woman”, embora isso só seja perceptível a olhares mais atentos: um, Uma Mulher de Sucesso, de Mike Nichols, com Melanie Griffith, Harrison Ford e Sigourney Weaver. Aqui percebe-se que hoje informação é poder, é influência, é um trunfo profissional eficaz; outro, Guerra, S.A., de Joshua Seftel, com John Cusack, Marisa Tomei e Hilary Duff, antecipa um mundo caótico que está mais perto de nós do que julgamos. Reparem no papel da cantora, Yonica Babyyeah, e da sua adaptação e sobrevivência num mundo caótico em desintegração. Há sempre o outro lado do espectáculo. Mas o seu poder, enquanto influência de estilo, atitude e comportamentos, independentemente da armadilha que implica para a própria, é enorme.
De Cat Stevens a que mais ouvi nos meus anos 70 foi a Morning Has Broken que me fartei de cantar. Mas não é dela que vou falar hoje, é de temas que redescobri no Youtube.
Talvez porque não os tenha voltado a ouvir, surgiram-me agora despidos de memórias intermédias. Porque a nostalgia é muito selectiva: ligamo-nos a imagens, sensações, emoções agradáveis, e resgatamo-las intactas anos mais tarde.
Do mais conhecido Tea for the Tillerman (70) escolhi On The Road to Find Out e Into White.
Do Teaser and the Firecat (71) escolhi If I Laugh e Bitterblue.
Do Catch Bull at Four (72) escolhi 18th Avenue (Kansas City Nightmare) e House of Freezing Steel.
Do Buddha and the Chocolate Box (74) escolhi King of Trees e Sun/C79. Esta fase é a minha preferida pela luminosidade e frescura que espalha no ar, uma vontade de nos pormos a caminho, de iniciar um qualquer percurso. Não é apenas a noção de espaço ilimitado, é essa genica que encerra, que se baseia na nossa natureza mais terrena.
Foi uma época de sonhos, sem dúvida, mas também de muita garra interior. O que aconteceu pelo caminho para tudo isto se perder?
É nesses dias claros dos meus anos 70 que me reencontro com a limpidez do essencial, a claridade do essencial, a simplicidade do essencial. Essa simplicidade já não a encontramos facilmente. Mas já a vi em certos, raros, olhares. É essa inocência original que eu mais aprecio.
A primeira vez que ouvi Joni Mitchell foi em Big Yellow Taxi e All I Want. Adorei esta voz e esta lógica fora do habitual. Mas quem ouvir Joni Mitchell na fase do For The Roses percebe que há um lado muito inteligente e cúmplice na forma como pega nos grandes temas da vida. Isso é o mais refrescante destes anos 70, pelo menos como os absorvi.
Aqui vai a sua voz límpida, inteligente e sensível: Woman of Heart and Mind, Cold Blue Steel and Sweet Fire, Electricity, The Blonde in The Bleachers. É tão difícil escolher...
Júlio Verne foi um dos meus primeiros autores da pré-adolescência que li entusiasmadamente. Viagem ao Centro da Terra, uma aventura fantástica digna de heróis mesmo que fossem pessoas comuns.
Veio depois a Volta ao Mundo em 80 dias. Aqui temos todos os ingredientes de uma aventura: ousadia, intrepidez, coragem, obstáculos naturais e humanos, inúmeros perigos, amizade e romance, não necessariamente por esta ordem... porque neste percurso atribulado tudo se mistura deliciosamente.
Talvez por tudo isto a sua adaptação ao cinema tenha sido sempre feliz. No entanto, a minha preferida é a de 1989, uma produção para televisão com Pierce Brosnan (Phileas Fogg), Eric Idle (Passepartout), Julia Nickson (princesa Aouda) e Peter Ustinov (detective Wilbur Fix).
Destaquei algumas partes do filme que redescobri no Youtube porque são tão deliciosamente refrescantes na sua simplicidade desarmante que resiste ao tempo, porque a simplicidade do essencial resiste sempre, nunca se torna obsoleta. As personagens surgem-nos aqui muito bem representadas pelos actores, de tal modo que nos interrogamos se Pierce Brosnan não terá muito deste Phileas Fogg, isto é, se não terá projectado uma parte de si neste Phileas Fogg (aposto que sim), e se a própria Julia Nickson não será mesmo uma verdadeira princesa (aposto de novo). Do Passepartout não tenho qualquer dúvida, Eric Idle vestiu-lhe a pele na perfeição.
Logo desde o início em que nos é dado o mote, tudo ganha uma emoção especial à medida que os obstáculos vão sendo ultrapassados. Reparem bem nesta sequência, nas lines e na acção, em perfeita sintonia, no ritmo e na antecipação.
No livro a minha preferida é, naturalmente, o salvamento da princesa Aouda. No filme não lhe fica atrás. Não imagino melhor Phileas Fogg para tão difícil tarefa.
Aqui, no meio da aventura, o romance, já anunciado em pequenas doses, surge-nos sem equívocos, óbvio, à vista desarmada. Reparem neste Phileas Fogg subitamente atrapalhado e na reacção de uma Aouda subitamente zangada. Esta sequência está perfeita.
Esta adaptação de Júlio Verne revela-se aqui bastante criativa, com um toque dos velhos guiões de Hollywood. Descobri no IMDB que essa marca se deve a John Gay, um guionista com várias nomeações na sua carreira.
Também o tema musical é refrescante. Já repararam como nos anos 80 se escolhiam temas assim, simples, alegres, como este, a lembrar navegações marírimas e comboios a atravessar planícies?
Como nas melhores aventuras, o final é perfeito, mas reparem que as personagens tiveram de se adaptar pelo caminho, a própria aventura mudou-os: Phileas Fogg descobriu que é possível mudar e Aouda mostrou-lhe isso mesmo. Será que na vida real isto seria possível? Queremos sempre acreditar que sim.
Nota: é com Júlio Verne e o mote aventura que inicio aqui a série "livros e filmes". Depois de um balanço sobre as coisas essenciais, verifiquei que há aqui posts que merecem ir para o saco da reciclagem e outros que, embora se mantenham oportunos, não revelam a minha verdadeira natureza jovial. Eu explico: a reflexão filosófica, sociológica e política que me acompanha desde a adolescência hoje cansa-me e desgostas-me mortalmente. Se todos esses posts que dediquei a temas actuais que me impressionaram ou incomodaram soam tão efervescentes, é mais pela perplexidade que os assuntos me causam do que pelo entusiasmo. O maior disparate em que podemos cair é pensar que devemos expressar a nossa opinião sobre o que se passa à nossa volta, uma espécie de dever cívico, ao país ou à comunidade em que nos calhou viver. Devemos sim é cuidar da nossa tranquilidade, do que nos anima a viver dia a dia, a iniciar uma nova tarefa, a conhecer pessoas e lugares. Se conseguirmos cuidar do essencial que nos move, melhor transmitiremos a nossa ideia essencial, na nossa prática diária e pelo resultado do nosso trabalho. Assim, como vivi a maior e melhor parte da minha vida entre livros e filmes, e música, jardins, encostas e planícies, porque não falar do que realmente me acorda e põe a caminho, esse entusiasmo que nunca esmorece?
No meu tempo de liceu, logo após a revolution, debatíamos ideias filosóficas e políticas no café. A minha memória não é extensiva a nomes de cafés, só à sua luz e arquitectura interior. Este hábito de encontrar colegas e amigos no café, de conversar no café, de estudar no café, foi-se perdendo. Há anos que o café deixou de fazer parte do meu itinerário social, a não ser como lugar de encontro, e geralmente é dentro de uma livraria ou num espaço ligado a livros e a filmes.
No país o hábito do debate filosófico foi esmorecendo, ficou só o político, como se o debate político pudesse passar ao lado do filosófico e do sociológico. O debate perdeu profundidade, consistência, substância, politizou-se. Ao politizar-se acendeu-se. Foi o que se passou no Prec, por exemplo. E assim se manteve efervescente nos anos 80, mas a esmorecer gradualmente.
Hibernou depois, restando apenas algum ruído de fundo, nos anos 90. Para se reacender durante o governo de coligação PSD-CDS/PP. Depois do abandono de Durão Barroso, o clima social que se viveu dava para escrever um livro de psicologia social ou de sociologia de fenómenos estranhos como um nevoeiro (estão a ver os filmes de terror?), criados pela comunicação social (imprensa escrita, sem excepções, e canais televisivos). O clima estava montado. Até hoje. O debate possível foi neutralizado e esvaziado. Ficou a narrativa oficial, a alienação e o entretenimento.
Hoje é a blogosfera que vem substituir os cafés, como lugar de debate filosófico, político, sociológico. Um debate que nunca se verificou verdadeiramente na televisão, um espaço nunca tão vazio e monocórdico como agora.
Que resista pelo menos aí, o debate, até à sua completa extinção.
Hoje trago aqui de novo dois trovadores, Graham Nash e David Crosby, que fizeram parte de um projecto que já aqui trouxe. Reparem nas vozes, nos sons e nas mensagens, como se interligam de forma clara e quase despida de toda a artificialidade. Como trovadores do essencial.
Estas viagens pelo Youtube levaram-me, pois, a descobrir temas que me marcaram dias límpidos… e eu tantas vezes sem saber de quem eram aquelas vozes, nessa altura isso era secundário, fixava-me nos sons, na mensagem, na ressonância que tinham nas minhas células e neurónios…
Só há uns anos descobri a amizade que os une, a mais genuína possível, tipo mosqueteiros, uma amizade que raramente vemos hoje em dia. Graham Nash nunca desistiu do amigo, como o próprio David reconheceu: o meu amigo salvou-me a vida, da dependência das drogas (não sei especificar qual delas). É um documentário inspirador que vale a pena descobrir.
Foi assim que resgatei ao tempo, como se o tempo não tivesse passado por cima de todos nós, este Graham Nash, There´s Only One, e é de arrepiar, sobretudo porque nunca mais o tinha ouvido. A Prison Song acompanhou-me muitos dias, gostava de a trautear. O Simple Man… E já agora Be Yourself, uma mensagem sempre actual.
Quanto a David Crosby, aqui vão as que melhor me acompanharam: Song With No Words (Tree Witn No Leaves), Laughing, Traction in The Rain, Music is Love, Tamalpais High (At About 3) e I'd Swear There Was Somebody Here.
Se a música dos meus anos 70 vem quase toda do outro lado do Atlântico? É verdade. Também os meus filmes vêm quase todos do lado de lá. Talvez a minha alma se dê melhor naquelas imensas planícies antes habitadas por índios: this land is not for sale… como no Thunderheart.
Associamos a família à ideia de refúgio e protecção (pais), apoio afectivo e elos fiáveis (casal), projecção no futuro (filhos). Mas raramente nos ocorreria associá-la à ideia de liberdade.
Algum dia leram o livro de George Orwell, 1984? Ou viram o filme? É mais um desafio que vos deixo, caros Viajantes.
No livro e no filme está lá essa ideia fundamental: o espaço de liberdade individual começa no espaço exacto dos afectos, dos laços afectivos. É aí que ele deixa de estar completamente só, vulnerável, exposto à domesticação social.
Este primeiro espaço afectivo pode ser alguém significativo que cuidou dele, ou apenas a memória de alguém que o tenha olhado com carinho, ou mesmo ainda a memória remota de canções infantis. Essa é a base possível para poder reconhecer num outro alguém a possibilidade de construção de laços fiáveis, espaço onde mais ninguém pode entrar, esse mundo invasivo e manipulador.
Os tempos que vivemos actualmente, no país e na Europa, não são assim tão distantes desse lugar opressivo do 1984 de Orwell, estamos lá perto. Daí a importância da família-espaço de liberdade, dos afectos-espaço de liberdade, da amizade-espaço de liberdade, do respeito por si próprio e pelos outros-espaço de liberdade.
Os meus anos 70 não foram todos eles felizes, houve anos muito bons e anos muito maus, pelo menos na forma como os senti. Mas os anos felizes, esses, estão para sempre ligados ao lado da saúde mental. Eu explico: a saúde mental está relacionada como o viver e deixar viver, com o respeito por si próprio e pelos outros, cultura que absorvi como uma esponja na infância e na adolescência.
Claro que esta máxima filosófica não era universal e muito do meu sofrimento posterior teve a ver com esse desajustamento, mas enfim… nesses anos de eterno verão essa máxima sobrepôs-se a todas as outras. Sentia-me feliz e estava rodeada de pessoas que se sentiam felizes. Não porque tivessem tudo o que materialmente se deseja num qualquer catálogo, mas simplesmente porque tinham o essencial: estavam vivas, de boa saúde, havia sempre legumes frescos na horta e fruta da época no quintal, as estações sucediam-se no tempo certo, a família estava unida para o melhor e para o pior, a primavera anunciava os meses de passeatas e mergulhos.
Havia uma sensação de desejo de futuro, e não era por ser adolescente, nos adultos sentia-se o mesmo. Havia uma sensação de novidade no ar, de promessas de novas experiências. Esta sensação misturava-se deliciosamente com uma sensação de conforto, de gratidão por estarmos todos ali, juntos, e não era preciso muito para fazer uma festa, um simples piquenique ou uma pequena viagem já eram uma aventura.
Hoje o que vejo à minha volta nada tem a ver com os meus anos 70. Há qualquer coisa de abafado e de opressivo, como se tivessemos recuado civilizacionalmente. A máxima saudável viver e deixar viver e o respeito por si próprio e pelos outros, perdeu-se no caminho. Se queremos manter a claridade de pensamentos e emoções temos de nos distanciar deste ruído constante e ir buscar essa brisa do eterno verão desses anos felizes.
Summer breeze sintetiza tudo. Há que resgatá-la dos nossos baús esquecidos, limpar o pó dos sótãos e das caves e tirar de lá fotografias de cores quentes e desmaiadas, para nos lembrarmos que já fomos assim, bem-humorados, gratos à vida, e felizes só por estarmos juntos.
Não estou a convidar ninguém para se alienar no passado, estou a propôr precisamente o contrário: resgatar a sua natureza original e autêntica para lidar de forma saudável com o difícil presente.
Nota breve: Escolhi a versão do Summer Breeze com o vídeo a lembrar as cores quentes das fotografias dos anos 70.
Já agora, na minha pesquisa sobre as composições dos Seals and Crofts (que desconhecia, só tinha fixado a sua brisa de verão), descobri estas duas, We May Never Pass This Way Again (with lyrics) e este delicioso You’re The Love. Dedico-as a todos os Viajantes que mantêm intacta a claridade dos anos felizes e que a sabem resgatar nos momentos difíceis.
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